sexta-feira, 7 de maio de 2010

Cantora lésbica testa tolerância de Nashville

Chely Wright
O anúncio de Chely Wright suscita questões sobre sua carreira na música country. Quando ela foi ao programa Today, na manhã de quarta-feira (5), o segredo já havia sido revelado: a cantora country, que conquistou certo sucesso no final dos anos 90 e começo dos 2000, havia decidido assumir que era lésbica. Nos seus primeiros anos em Nashville, "eu sabia que precisava ocultar esse fato para realizar meus sonhos", disse Wright em entrevista a Natalie Morales, a apresentadora do programa. Natalie Morales
Mas embora seus sonhos possam ter mudado, a escala do anúncio feito na entrevista ao Today, em artigo da revista People e em artigo no site people.com pouco tem a ver com Wright. Apenas uma de suas canções chegou aos 10 mais na parada country da revista Billboard O Single White Female, de 1999, que chegou ao topo da parada-, e ela está em larga medida ausente da mídia desde 2004, quando lançou The Bumper of My SUV, uma mensagem delicada e apolítica de apoio aos soldados norte-americanos.
O destaque dado ao anúncio de Wright na verdade ilumina o mundo da música country, que historicamente nunca ofereceu muito espaço à diferença. O desvio de Wright com relação aos valores frequentemente proclamados desse gênero de música muitas vezes conservadores e religiosos, ainda que raramente homófobos de modo escancarado chegou em companhia de um livro de memórias, Like Me: Confessions of a Heartland Country Singer, e de um novo álbum, Lifted Off the Ground, mas o maior impacto dessa história certamente será sobre a imagem monolítica da música country nos Estados Unidos.
Chely Wright
Escândalos e redenções nunca faltaram à música country, ao longo dos anos, mas os últimos meses viram numerosos casos de cantoras que parecem dispostas a deixar para trás velhas identidades, em alguns casos um esforço para que seu comportamento passado seja esquecido, e em outros casos para que seja perdoado.

O álbum de Wright surgiu no mesmo dia em que saiu Court Yard Hounds, o projeto homônimo de Emily Robison e Martie Maguire, as duas integrantes do grupo Dixie Chicks que não declararam ter vergonha de que o presidente dos Estados Unidos tivesse nascido no Texas foi a terceira e mais politizada integrante do grupo, Natalie Maines, que o fez, mas ela não participa do novo disco.
Robison e Maguire
De uma perspectiva financeira, a declaração custou caro ao Dixie Chicks. No passado queridinhas das rádios country e vendedoras de milhões de discos, elas estão há muito tempo sem gravar e praticamente desapareceram de muitos repertórios de rádio. Envolveram-se em uma disputa verbal com Toby Keith, patriota e agitador político incansável, e isso só serviu para solidificar sua reputação como encrenqueiras e inimigas da tradição. Agora, Robison e Maguire ocupam uma posição incomum: artistas imensamente famosas tentando se relançar como um novo grupo, livre de associações negativas.
Dixie Chicks
Mas os problemas do grupo foram políticos, e não pessoais. Outra cantora que está tentando aproveitar, e superar, seu passado conturbado é Mindy McCready, que foi uma das promissoras cantoras jovens de country mas sofreu espetaculares percalços em sua vida pessoal ao longo dos últimos 10 anos: detenções, drogas, reabilitações, duas tentativas de suicídio, revelações de um caso com o astro do beisebol Roger Clemens, um vídeo de sexo. Mindy McCready
No começo do ano, McCready participou de Celebrity Rehab With Dr. Drew, um reality show do canal VH1, e em uma das mais comoventes cenas do programa cantou para seus colegas pacientes a desafiadora e inédita balada I'm Still Here.

A canção serve de título ao seu mais recente álbum, um disco modesto mas elegante que só se refere aos problemas que ela enfrentou de maneira oblíqua. A voz de McCready é áspera e sensual, e continua em boa forma, forte o suficiente para desafiar a capacidade de perdão de Nashville, embora o álbum até o momento não tenha causado forte impacto. Wright, por exemplo, espera que o perdão seja um instinto muito forte na música country. Em diversas das canções de Lifted Off the Ground, seu sétimo disco de estúdio, a composição é precisa, e as letras são aguçadas. Em Notes to the Coroner, composta em forma de bilhete de suicídio, ela canta que "se o senhor estiver lendo, saberá que eu morri/ Tristeza terminal, arrependimento crônico/ Um grande emaranhado de dor, vestida em pijamas". É a canção mais enérgica do álbum.

Mas em termos musicais Lifted Off the Ground é chocho: um disco country leve, anódino, com influências folk mas não muito ataque. (Além disso, duas letras contêm palavrões, algo que Nashville desaprova fortemente.) É um disco que a cultura dominante do country talvez ignorasse de todo modo, o que de certa forma atenua a importância do anúncio de Wright. Como ex-estrela e autora de um disco modesto de retorno, ela é claramente alguém que está de fora do circuito.

Mas se o disco de Wright não funciona bem, seu livro é um sucesso. A cantora trata de forma direta do peso que sua vida secreta exerceu sobre ela e suas parceiras. No livro, a suposta intolerância da indústria da música country é demonstrada por meio de uma desconfortável conversa entre ela e John Rich, da dupla Big & Rich, vista por muitos como uma das mais progressistas de Nashville. "Você sabe, escolher esse tipo de vida não é legal", ele teria dito, de acordo com Wright. "Os fãs não vão aceitar. A indústria não vai aceitar". K.D. Lang
O alerta de Rich é apenas parcialmente correto. Wright não é a única cantora country a se declarar lésbica. K. D. Lang fez o mesmo em 1992, ainda que àquela altura ela já tivesse deixado o country em larga medida no passado. A formação original do grupo Sugarland incluía a cantora e compositora lésbica Kristen Hall, que escreveu boa parte das canções do primeiro disco do grupo, antes de sair para a carreira solo. Kristen Hall
Nenhuma dessas artistas compôs canções country convencionais falando de sua orientação sexual. Em Like Me, Wright chega perto de fazê-lo, ao falar de uma antiga amante que enfrenta problemas de identidade sexual "quem vai terminar segurando sua mão? Uma bela mulher ou um homem alto e bonitão?"-, o que vincula o tema ao duplo sentido do refrão, que captura a futilidade de um amor vivido por trás de portas fechadas -"será que alguém um dia vai te conhecer como eu?"
Mas o álbum não traz momentos grandiosos de revelação, ou declarações de orgulho explícito. Para isso precisamos recorrer ao disco das Court Yard Hounds, que encaram o tema de forma aberta em Ain't No Son, escrita do ponto de vista de um pai ressentido quanto à homossexualidade do filho:
"Sei, você deve circular
Porque a notícia certamente circulou
Você não sabe que nem posso
Mostrar a cara nessa cidade
?"
É uma canção muito mais zangada e muito mais direta que qualquer das composições de Wright. É justo acrescentar que Robison e Maguire já são párias, embora multimilionárias, e não têm muito a perder. Mas no caso de Wright, é seu primeiro contato com um escândalo, e ela está levando a situação com gentileza. Afinal, a questão não se refere pessoalmente a ela.







Fonte: Terra, The New York Times e YouTube.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

LinkWithin

Related Posts with Thumbnails